Osseointegração – o estado da arte

2 anos atrás por / 5 minutos de leitura

A osseointegração foi estabelecida há cerca de 6 décadas e, desde então, permitiu a reabilitação de indivíduos parcial ou totalmente desdentados com conforto e previsibilidade. Muitos avanços ocorreram após esta descoberta inicial, sendo que a própria osseointegração foi maximizada principalmente por meio de alterações nas superfícies e desenho dos implantes. No entanto, a “enxurrada” de opções que existem no mercado atualmente, por vezes, acabam por confundir o cirurgião-dentista na adequada tomada de decisão clínica.

Mesmo sabendo da necessidade de se acompanhar os avanços tecnológicos e de, possivelmente, usar o que há de mais moderno no mercado, as escolhas clínicas devem ser pautadas em evidência científica ao invés de apenas usar o novo por desejar estar na vanguarda da inovação. Neste sentido, muitos odontologistas se esquecem de exigir evidência científica com relação a tudo aquilo que é lançado no mercado. Soma-se a isso o fato da necessidade da manutenção da osseointegração a longo prazo e, neste sentido, a terapia periimplantar de suporte (manutenção) não pode ser negligenciada.

Para discutir mais profundamente essas questões, entrevistamos o profissional André Pelegrine, especialista em Periodontia, mestre em Implantodontia e doutor em Clínica Médica.

Legado de Per Ingvar Branemark

Não apenas a Implantodontia, mas a Odontologia como um todo pode ser dividida em antes e depois de Branemark. Isso se deve à repercussão clínica que se sucedeu a sua principal descoberta, feita em meados da década de 1950: a osseointegração de implantes de titânio. “O ser humano primitivo, tão logo percebeu que o dente tinha uma estrutura ancorada na arcada (a raiz dental), iniciou a busca pela reposição do dente perdido com a ideia de ancorar algo no alvéolo dental”, afirma André. Nesse processo histórico, tentou-se desde varas de bambu (achados arqueológicos que datam de mais de 5000 anos), até conchas, marfim e diversas ligas metálicas. Portanto, desde os primórdios da “Implantodontia arcaica” até Branemark, colecionamos milênios de insucessos.

Tendo isso em mente, é possível imaginar a difícil missão de Branemark pós descoberta da osseointegração: convencer a comunidade científica de que implantes poderiam ser utilizados com previsibilidade, a despeito do retrospecto negativo que a história mostrava. Para tanto, o Professor Branemark teve o meticuloso trabalho de testar a osseointegração de forma sistemática em animais e, em um segundo momento, em humanos. Após a decisão de iniciar as pesquisas em humanos, Branemark fez um acompanhamento de 10 anos de pacientes reabilitados com próteses fixas totais e, em 1982, apresentou a osseointegração ao mundo na Conferência de Toronto. Nesta ocasião, ele ponderou que havia feito a descoberta inicial há mais de 25 anos.

Com as provas irrefutáveis de que a osseointegração poderia ser conquistada com previsibilidade desde que alguns princípios fossem respeitados, iniciou-se a busca por melhorias no processo de osseointegração que possibilitassem aumentar a gama de pacientes tratados, assim como diminuir o tempo de tratamento. A partir deste ponto a discussão sobre tratamentos de superfície ganhou enorme destaque na literatura científica e as empresas de implantes incorporaram esta tendência no processo fabril. Com isso, mesmo em situações de osso de baixa densidade, a obtenção da osseointegração é previsível na atualidade. Mas a pergunta que não quer calar é: existem diferenças substanciais entre as superfícies das diferentes marcas comerciais? Quais os melhores métodos? Existe evidência científica para todas as marcas de implantes?

O nível de osseointegração difere entre os sistemas de implantes?

É consensual o fato de que modificações na morfologia da superfície de um biomaterial que mimetize a arquitetura do tecido (natural) tende a incrementar as interações celulares e a promoção da formação de um tecido saudável. Neste sentido, diferentes metodologias de tratamento de superfície vêm sendo utilizadas pela indústria de Implantodontia há algumas décadas, tais como plasma spray de titânio, spray de hidroxiapatita, anodização, jateamento, ataque ácido, jateamento seguido de ataque ácido e laser. Esses métodos produzem, na maioria das situações, superfícies microestruturadas e, ocasionalmente, nanoestruturadas.

Materiais nanoestruturados possuem diferentes propriedades físicas e químicas que podem repercutir em melhor interação com células humanas e algumas proteínas. Superfícies de implantes com microestruturadas são produzidas há décadas pela indústria da Implantodontia, como as produzidas pelo tratamento com jateamento seguido de condicionamento ácido, que melhoram consideravelmente a hidrofilia da superfície. No entanto, avanços recentes em nanotecnologia permitem melhorias excepcionais na interação molecular e celular, além de maximizarem a hidrofilia.

Neste sentido, a realização de topografias híbridas, com tratamentos de superfícies convencionais (e.g. jateamento seguido de condicionamento ácido), que promovem micro rugosidades, seguidas por tratamentos de nanotexturização parecem representar um futuro promissor para a indústria da Ortopedia e Implantodontia. Além disso, a despeito das micro superfícies resultarem em melhores níveis de osseointegração quando comparadas a superfícies usinadas, sabe-se que que micro superfícies podem promover a diferenciação osteoblástica mas inibem sua proliferação. Por outro lado, a nanotopografia pode promover ambas, diferenciação e proliferação osteoblástica.

A superfície dos implantes da MIS pode ser categorizada como uma superfície de topografia híbrida, já que passa pelo processo padrão de jateamento e ataque ácido seguido de uma tecnologia nano que possibilita a incorporação de uma camada mono-molecular de multi fosfonatos, a qual é reconhecida como semelhante ao osso pelo organismo. Isso resulta em osteogênese por contato logo após a instalação do implante, ou seja, inicia-se o processo de formação óssea diretamente sobre a superfície do implante.

Quando comparada aos implantes que contam apenas com a osteogênese à distância, os implantes da MIS reconhecidamente permitem a realização de carga precocemente pois aceleram e maximizam a osseointegração, além de preservar o nível ósseo periimplantar e repercutir em sobrevivência dos implantes a longo prazo, mesmo em pacientes com comprometimento no padrão de cicatrização.

A nanotecnologia veio para ficar e a MIS não poderia deixar de utilizar essa poderosa ferramenta em prol de seus usuários e pacientes.

ESCRITO POR

Mestre em Implantodontia pela Universidade de Santo Amaro Doutor em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP (2010) Pós-doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo, UNIFESP Professor Titular de Implantodontia da São Leopoldo Mandic Coordenador da EPPIC

Leia também

Implantodontia 360º - Marrakech 2020

2 anos atrás por Mariana Fernandes / menos de um minuto de leitura

Leia mais

0 comentários

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

Salvar meus dados para a próxima vez que eu comentar

ENTRE EM CONTATO

Fale com um consultor

Carregando

QUER RECEBER VISITA DE UM CONSULTOR?